terça-feira, 3 de julho de 2012

Barulhos.

Morrer dói? Eu sinto vontade de dizer que sim, mas querida, dói muito mais continuar viva.

Universo em chamas.


Ainda me lembro das primeiras palavras que trocamos. Também recordo-me da primeira vez que fitei seus olhos. Aqueles olhos como dois pontos vazios no universo. Sempre tive a impressão de que poderia cair neles para sempre e jamais me arrepender disto. Então, toda vez que penso em seus olhos, eu os vejo como minha pequena morte, e tenho a impressão de que foi por que confiei naqueles olhos que continuo viva.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Noite.

Ela apareceu completamente tonta. Não que ele se importasse, não estava nem ai, a única coisa que realmente interessava era poder trepar com ela. Apenas uma garota para se levar para cama, e ela sabe se virar quando é jogada fora. O único problema é que ela gosta de transformar as coisas em algo simbólico, segundo seu agrado. Nada permanece na neutralidade, e o que houve com ela naquela noite? Ele parou e sorriu radiante. Era problema inteiramente dela, não dele. É claro que ele gostava dela, gostava do seu corpo, ou dela estar ao alcance das mãos. Mas era apenas uma fração, e seus pensamentos não importavam nem um pouco. E ela sabia disso.
Caminharam um pouco antes de ir para a casa dele, enquanto ela ia de um lado para o outro a procura de dentes de leão e falando bobagens. O céu não estava muito escuro, e tudo parecia falso e artificial, nada que faça parecer menos patético para ela, que se encontrava em um estado entorpecente e precisava se libertar de algo invisível.
No meio de conversas aleatórias, ela o acusou de ser falso, e se ele concordou que era falso, a intenção era de prevenção e não uma ameaça. Mas lhe deu um frio na espinha quando ele declarou isso. Era tudo muito besta.
De qualquer forma, eles seguiram para casa dele. Ambos os casos eram lamentáveis, deitaram na cama e treparam.
Do sexo, pode-se dizer que foi algo vazio que só se pode guardar uma vaga lembrança. Não que tivesse sido ruim, não foi este o ponto. Ele sabia acariciar de maneira incomparável, e tinha experiência o suficiente para fazê-la gemer de verdade. Porém era perceptível que algo ia mal, e era de comum interesse ignorar isto.
Era óbvio que ele a via como uma garota maluca depressiva que teria depositado nele todas as esperanças, o que mostra que ele tinha uma boa opinião de si próprio, mesmo que significasse que ele era prepotente e egoísta. Enquanto ela apenas extraia um grande vácuo, buscava apresentar todas as suas formas, agindo como se estivesse apaixonada. Era uma forma tola de se portar, e ela sabia disso, sabia também que era mesmo uma menina boba e ingênua, mas não era completamente idiota de se deixar tomar por um cara que nem consegue mais escrever uma poesia. A agitação louca era o que a mantinha viva, mesmo que fosse certamente uma chama apagada. O que tornava tudo ainda mais constrangedor.
Eles tomaram banho e ele a levou para casa, deixando ela se esquentar debaixo do seu casaco, se funcionaria, pouco importava, era só mera educação. Queria toca-la e não possuí-la. Era simples. Ela que teimava em complicar de mais as coisas.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Olá.


M: Oi.
N: Oi.
M: Ta tarde pra ficar aqui na rua...
N: Vamos entrar?
M: Sua casa ou a minha?
N: A minha né, a gente sempre acaba por lá mesmo.
M: Você sabe o porquê.
N: Sei, mas não me importo.
M: Deveria.
N: Será que vale mesmo a pena?
M: Valeria se você se importasse.
N: Não fui eu que disse não.
M: Eu sei, desculpe.
N: Tanto faz...
M: Foi por causa dele, sabia?
N: Dele?
M: Sim. Ele me disse para dizer não, e eu disse.
N: Suas crenças sempre me surpreendem.
M: E suas palavras sempre me decepcionam.
N: Sou uma decepção pra você?
M: Sim.
N: É uma pena.
M: Não, é melhor assim, eu não ia suportar se fosse diferente.
N: Mas poderia ter sido.
M: Poder, poderia, mas o final seria o mesmo.
N: Como você sabe?
M: Você disse.
N: Tem certeza?
M: Absoluta.
N: Então tá...
M: Para.
N: Para o que?
M: De fazer isso.
N: Isso?
M: É.
N: Te machuca?
M: Sim.
N: Bom saber.
M: Sempre usando tudo contra mim, não é?
N: Nem sempre.
M: Mas quase.
N: Mesmo assim não é sempre.
M: Se fosse, doeria menos.
N: Eu sei.
M: Você faz de propósito, não faz?
N: Quem sabe...
M: Fico feliz por ter dito não.
N: Mentira.
M: Não é.
N: Tem certeza?
M: Sim.
N: Não, não tem.
M: Cala a boca.
N: Mesmo se eu calar, vai fazer diferença?
M: Na verdade não.
N: Então, vamos entrar?
M: Vamos, está frio aqui fora.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Adeus.


Estas gotas de sangue que caem, uma a uma, são tão delicadas quanto as flores girando sobre o vento. Quando eu olho pela janela, todo o universo quieto, em mutação, que se expande como se o tempo tivesse parado, vendo tantos encontros e desencontros.
É este o céu que parece dormir imortal que nós vemos. E em meu peito estão esmagadas as palavras trêmulas, que cortam com o ar que respiramos. Por que exatamente lá?
Hoje eu quero esquecer todas as vezes que você esteve presente. Quero borrar todos os detalhes, todo o sangue que escorreu por estes lençóis por sua causa. Por que as mãos que eu segurei, e nunca vou fui capaz de alcançar.
Então, estas palavras que começam a tremer demais são tudo que eu tenho. Quando soube da primeira vez que você jamais me amaria, eu apenas não queria aceitar isto. Você sempre estava fadando nosso relacionamento ao fracasso, sempre tão distante e imóvel enquanto eu tentava miseravelmente ter alguma reação. Talvez eu não tenha tentado o bastante todas as vezes que eu pude, e talvez eu não tenha sido tão sincera quanto eu gostaria. Então se eu fiz você se sentir como o segundo lugar, me desculpe, eu estava apenas com raiva, pois quanto mais você me criticava mais eu me tornava consciente de minha irritação, e mais eu me tornei incapaz de amar com pureza.
Mas eu relutei até a dor do rompimento, das juras de amor que trocamos, do mundo que nos engoliu. Então vamos permanecer os mesmos por toda a eternidade, assim como estávamos naquele dia quente, no meio do asfalto doce como um beijo roubado.

sábado, 12 de março de 2011

Me diga.

Eu estou tomando comprimidos de mais, colocando balas do revolver na boca. Mas se você quer tanto assim, pode tê-la.
Segure bem estas palavras, por que eu estou suspensa no tempo. Eu arranco estas flores para por dentro de uma cova.
Eu não posso fazer nada sobre isso. Apenas continue com o cinismo.
Você sabe, eu vou derramar pelos seus dentes como sangue. Venha comigo agora, você viria de qualquer jeito.
Você quer lamber estas lágrimas de ácido entre meus joelhos? Eu estou apta para te divertir.
Fure minha língua, você deveria ter ficado em casa, eu deveria conhecer melhor. Me diga, qual é o meu gosto.
Eu não vou recuar, por ninguém.
Apenas um arrependimento. Quando você me ver chegando, é melhor olhar para baixo. Eu não poupo respirações.
Tão denso quanto o oceano. Minhas veias estão cheias de cristais de açúcar. Eu me despejo entre mãos quentes.
Mate, recue, cuspa.
Abrace esta voz na sua cabeça. Tente.
Em noites vazias, eu sou todo o universo colidindo. Eu sou o pequeno pecado. O vazio tão encantador que você procura.
Escave meu corpo, descubra meus ossos. Você arranhou meus braços enquanto puxava o gatilho.
Não é triste, é apenas apático.
Você disse que está com vontade de mim. Me mandou abrir a porta no meio da noite. Mas eu não sou um corpo caído no quarto do motel.
Ninguém pode abraçar minha silhueta congelada. Existem buracos maiores dentro de mim.
Viva isso, anule, dissolva, nesta xícara com água morna. 
Continue correndo. Atravesse meu coração, até nunca acabar.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Estilhaços.

Fique calma, sufocada pelos seus pesadelos. Um suspiro seco, ao tirar a maquiagem. Leve e decadente.
Pessoas infelizes estão espalhadas pela sua cama. Um grito de socorro entre lençóis amarrados na garganta. Um dia negro neste conto de fadas.
Você deseja sentir alguma coisa que não seja tão gelada.  Apenas uma foto, com estes olhos tão tristes. Você sempre foi assim, não foi?
Seus cacos estão transbordando. Você sente no ar seco todas as promessas. Este sacrifício, sorriso calculado, não olhe para trás, nem uma vez.
Se rasgassem seu estomago, você teria motivos para chorar. Coloque estas mãos no assoalho sujo, tome todos aqueles comprimidos, chore todo este escuro que você costurou nas tuas veias.
Seu coração não bate. Sua alma não vive.  Você pode ver através da morte dês do dia que nasceu.
Línguas afiadas cortaram seus pulsos, mentiras escorreram pelo chão.
Você está perdida na própria destruição.
Lágrimas abram este sorriso mais uma vez.
Um borrão no tempo, perdido dentro destes espelhos. Você não encontra verdade em si mesma.